7. ARTES E ESPETCULOS 19.6.13

1. FOTOGRAFIA  VELOZES E CURIOSOS
2. MSICA  SAUDOSISMO DAS TREVAS
3. TELEVISO  POR CIMA DA CARNE-SECA
4. LIVROS  A MAIS FANTSTICA DAS MEMRIAS
5. CINEMA  EDUCAO NO GRITO
6. VEJA RECOMENDA
7. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
8. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  HERI PELO QUE NO FEZ

1. FOTOGRAFIA  VELOZES E CURIOSOS
Assim so os flagrantes do comeo do sculo XX feitos pelo francs Lartigue. Uma mostra no Rio de Janeiro atesta que a fotografia se divide entre antes e depois dele.
MARCELO MARTHE

     Em fevereiro de 1925, o francs Jacques Lartigue captou com sua cmera fotogrfica uma Cote d'Azur que ia contra o lugar-comum dos cartes-postais. Em vez do sol convidativo e das guas mansas do Mediterrneo, o calado de Nice era a imagem do caos. Debaixo de uma tempestade, figuras taciturnas caminhavam em meio a destroos trazidos pela ressaca do mar. "O vento, a chuva, as ondas so as nicas coisas que penetram na minha memria", anotou ele num dirio. A bem da verdade, o mximo de tempo ruim na vida e na obra de Lartigue resumia-se a isto: a atrao por uma bela borrasca. Ricao de bero e desbravador da fotografia no incio do sculo XX, ele celebrou a boa vida, a moda, os prazeres da atividade fsica e a curiosidade em relao s novas mquinas do mundo moderno, os carros de corrida e os avies. O que no implicava futilidade. As 255 imagens de sua primeira retrospectiva no pas  em cartaz na sede carioca do Instituto Moreira Salles a partir do sbado 15  atestam que Lartigue foi um mestre da composio engenhosa e, sobretudo, dos flagrantes do movimento. Antes dele, nada se fez de parecido. Ainda hoje, suas fotos atordoam.
     Lartigue comeou a fotografar com 8 anos, graas ao estmulo do pai, um negociante abastado e entusiasta das transformaes tecnolgicas de seu tempo. No castelo da famlia, ele e seu irmo, Zissou, se dividiam na tarefa de abraar tais inovaes. Enquanto o mano atacava de inventor, Lartigue ia coletando imagens de tudo. Sua precocidade impressiona: ele produziu boa parte de suas fotografias famosas entre a infncia e a adolescncia. Mesmo depois de adulto, a principal atividade de Lartigue continuou a ser o cio criativo. Contam-se nos dedos de uma mo os dias em que ele trabalhou na vida. Chegou a atuar nos bastidores de uma produo de cinema, mas logo se aborreceu. Embora se visse como pintor, sua produo era menor, e ele ganhou s umas migalhas com a atividade. Enquanto isso, encarava a fotografia apenas como um passatempo. Colava suas imagens (deixou um total de 45.000) em lbuns com o intuito de divertir os amigos aps os jantares. ''Ele foi um amador genial", diz lise Jasmin, colaboradora da curadoria da exposio  que chegar a So Paulo, Curitiba e Belo Horizonte em 2014. 
     A descoberta de seu talento foi tardia. Mas at nisso Lartigue foi afortunado. Nos anos 1960, quando a renda do bonvivant declinava, ele mostrou suas "pequenas fotos" a um especialista americano, que topou dar uma espiada s por educao  e teve o choque de descobrir um tesouro guardado por seis dcadas. Aps ser apresentado ao mundo e tornar-se prximo de fotgrafos como o americano Richard Avedon, Lartigue alcanou a fama e viveu de seu antigo passatempo at morrer, em 1986, aos 92 anos. "No fosse pelo momento de descoberta nos anos 60, talvez ele tivesse terminado seus dias de forma amarga", diz Srgio Burgi, do Instituto Moreira Salles. Na vida de Lartigue, assim como nos carres de suas fotos, a roda nunca parou de girar.

SEM TEMPO RUIM - Tempestade em Nice, foto de fevereiro de 1925 que mostra a Cote d'Azur por um ngulo distante do clich ensolarado: o bon-vivant revelou-se um gigante da fotografia.

RPIDO NO GATILHO - Dois registros de esportistas em ao nas praias francesas
de Cannes (acima) e Royan, nos anos 1920: ao flagrar o momento em que o esporte e a atividade fsica se difundiam at entre as mulheres, Lartigue tambm rompeu com a formalidade e a composio esttica da fotografia de seu tempo.

PAIXES DE FAMLIA - A desenvoltura da francesa Suzanne Lenglen  conhecida como Divine, estrela pioneira do tnis feminino   e Zissou, o irmo do fotgrafo, fazendo duas de suas gracinhas tpicas: enquanto o mano atacava de inventor, Lartigue fazia suas "pequenas fotos" para divertir a famlia depois do jantar.

TEMPOS MODERNOS - Lartigue fotografou os primeiros avies, a exploso de esportes como a natao e o automobilismo  o brasileiro Santos Dumont, alis, seria um dos homens de chapu na foto da corrida.

CIO CRIATIVO A moda nas ruas e mocas do, filme em que Lartigue atuou como assistente  at irritar-se com o trabalho. "Por que perder a vida tentando ganh-la?", dizia.

TALENTO ANIMAL  Numa poca de recursos tcnicos precrios, ele se valia da intuio e do golpe rpido dos olhos para captar o instante crucial de um movimento. Gostava de fazer suas fotos de primeira  ainda que se desconfie que pedia para repetir algumas cenas, como esta em que o secretrio de seu pai, monsieur Follette, arremessa seu pobre cozinho, Tupu, em um riacho. Lartigue tinha 18 anos ao fazer a imagem.


2. MSICA  SAUDOSISMO DAS TREVAS
Criador do heavy metal, o Black Sabbath lana 13, disco que, depois de mais de trs dcadas, reintegra ao grupo seu mais famoso e abilolado componente, Ozzy Osbourne.

     Entrevistas com Ozzy Osbourne nunca so tediosas. O vocalista do Black Sabbath, banda que retomou a formao original (bem, trs quartos dela) no recm-lanado disco 13, , afinal, uma figura histrica do rock. Mas o divertido  quando ele recria o sujeito abobalhado do reality show The Osbournes, exibido na dcada passada pela MTV, no qual era feito de gato e sapato pela mulher, Sharon, e pelos filhos, Jack e Kelly. "Voc  do Brasil?", pergunta Osbourne. "Mal posso esperar para voltar a. Estamos em negociao para visitar seu pas em breve." Quando alertado por este reprter de que o Black Sabbath j acertou shows em outubro, em Porto Alegre, So Paulo e Rio, o homem que recebeu o epteto de Senhor das Trevas toma um choque. "Jura? Ento venha nos assistir." 
     O Black Sabbath criou o heavy metal. O lbum de estreia do quarteto, lanado numa sexta-feira 13 de 1970, trazia elementos que mais tarde foram assimilados por todas as bandas do gnero: canes pesadas e arrastadas, pouca sutileza na guitarra e na seo rtmica e um vocal que parecia reconstituir como deveriam soar os lamentos de um profeta do Antigo Testamento. As letras do baixista Geezer Butler, leitor voraz dos contos gticos do ingls Dennis Wheatley, temperavam o pessimismo pelo fim do sonho hippie com uma obsesso pelo ocultismo. Esse elemento at hoje traz problemas para os integrantes do grupo. "As pessoas ainda me olham como algum que se diverte crucificando seres humanos. Mas sou um sujeito bem-humorado, casado com uma mulher maravilhosa e que tem filhos fantsticos", diz o vocalista (o espectador de seu reality show talvez tenha outra impresso da famlia). Osbourne foi expulso do Black Sabbath em 1978 por causa do abuso de lcool e drogas. Deve ter sido um abuso e tanto, visto o retrospecto do quarteto em exageros qumicos (durante a passagem do Black Sabbath pelo Brasil, em 1992. Butler socou o hspede de um hotel porque este no o cumprimentou  s para descobrir, dolorosamente, que no se tratava de um hspede, mas de uma esttua). Dois meses atrs, Osbourne utilizou sua pgina no Facebook para confessar que estava novamente sbrio, aps uma recada nas drogas e na bebida. "Prefiro tornar meus problemas pblicos a ser desmascarado pela imprensa. H paparazzi em todo lugar", desabafa. 
     13  o primeiro disco de estdio do Black Sabbath em dezoito anos e o primeiro em trs dcadas e meia com Ozzy Osbourne. Anunciado com pompa e circunstncia no dia 11/11/2011, o retorno do quarteto britnico enfrentou alguns acidentes de percurso. Primeiro, o guitarrista Tony Iommi foi diagnosticado com linfoma  e ainda segue em tratamento. Depois, Bill Ward, o baterista original, pulou fora do projeto, queixando-se de que ganharia menos do que os demais integrantes da banda. Aventou-se que Ward na verdade no teria mais a habilidade tcnica para sustentar a pauleira do Black Sabbath. "No me lembro por que ele saiu, mas no poderamos esperar tanto para completar um novo lbum", desconversa o vocalista. Brad Wilk, do Rage Against the Machine, foi escolhido para substituir Ward.
     O novo disco do Black Sabbath tem produo de Rick Rubin, cujo currculo vai do heavy metal extremo do Slayer ao pop da cantora Adele. Rubin no buscou novidades: optou por devolver a majestade ao quarteto. 13  um disco autorreferente. Canes como End of the Beginning, Loner e Zeitgeist decalcam, propositadamente, o Black Sabbath do perodo 1970-1973. As letras pessimistas de Butler esto mais prximas da fico cientfica do que do ocultismo, mas ainda carregam referncias bblicas e sugestes   de sacrilgio. "Me d mais vinho/ Eu no preciso do po", prega em God Is Dead?. 13 se encerra com Dear Father, faixa que traz o mesmo rudo de chuva que abria o lbum de estreia do Black Sabbath, de 1970  o que revela o esforo da banda para se reconectar ao seu passado. "Est tudo igual. A nica diferena  que agora temos crticas positivas", diz Ozzy Osbourne. E pergunta: "O que esto falando do disco no Brasil?'. At o Senhor das Trevas est preocupado com sua popularidade.


3. TELEVISO  POR CIMA DA CARNE-SECA
 srio: Luciana Gimenez fincou os pernes na Amrica.

     Nos ltimos meses, Luciana Gimenez viveu um namoro s escondidas. No, ningum ameaa o reinado de seu marido, Marcelo de Carvalho, um dos proprietrios da RedeTV!  emissora na qual ela conduz h doze anos o Superpop e, desde 2012, o talk-show Luciana by Night. O fato  que outras apresentadoras brasileiras matariam para ser notadas por seu novo, digamos, affair, a rede de TV americana ABC. "J estamos nos relacionando faz um tempo", informa ela. Viu-se o primeiro fruto da aproximao na segunda-feira passada: Luciana foi coapresentadora por um dia do The View, atrao tradicionalssima nas manhs dos Estados Unidos. Dividiu a bancada do programa com um patrimnio tombado da televiso, a veterana Barbara Walters, e suas colegas Sherri Shepherd e Whoopi Goldberg. De cara, a atriz do filme Mudana de Hbito tascou: "Ela  a Oprah do Brasil". Luciana no se intimidou ao ser equiparada  maior apresentadora americana, Oprah Winfrey. "A comparao foi boa porque ela  verdadeira. E eu sou verdadeira", diz. Exageros whoopianos  parte, a verdade  que Luciana mandou bem. Te cuida, Ftima Bernardes.  
     Luciana entrou em cena de braos dados com Barbara. "Quando ela me agarrou, no acreditei. Barbara no gosta que ponham as mos nela", conta. Logo teve de mostrar seu jogo de cintura. Esclareceu que no Brasil se fala portugus, no espanhol. Em seguida, enfrentou questes sobre a relao com o roqueiro Mick Jagger, pai de seu filho mais velho, Lucas, de 14 anos. Com humor, narrou a dificuldade em ensinar o rebento a fazer xixi. "Quando voltei para casa, o Lucas reclamou: 'Nossa, me, voc tinha de falar do meu wee wee na TV?'". Em outros momentos, aflorou aquela Luciana que todos conhecem. " pessoal?", espantou-se ao se anunciar um debate sobre prostituio. "At eu, que sou autocrtica, achei que fui bem. Toro por mais participaes", diz. 
     Pode parecer inslito uma rede americana investir numa apresentadora brasileira  ainda mais em uma conhecida por comandar um programa de baixa audincia com jeito, v l, algo abilolado. Mas um exame mais detido revela que a escolha faz sentido. Sabe-se que a ABC busca estreitar seus laos com a comunidade latina dos Estados Unidos por meio de uma beldade da regio. Luciana tem a vantagem de ostentar um fio de contato com o mundo anglo-saxo  a ligao com Jagger. E o principal: como morou no exterior, fala ingls com fluncia. "Eles acham meu sotaque intriguing (intrigante)", diz. No fundo, Luciana sabe bem o que esperam dela: "Os americanos precisam de carne nova no pedao". 
MARCELO MARTHE


4. LIVROS  A MAIS FANTSTICA DAS MEMRIAS
O ingls Neil Gaiman demonstra toda a tcnica que o consagrou como gigante dos quadrinhos em um romance marcado pela fantasia, mas de fundo autobiogrfico.

     O incio quase poderia figurar em um romance realista do sculo XIX: um homem de meia-idade volta  regio onde passou a infncia. No reconhece a casa velha na qual morou por sete anos, mas o lago ainda  o mesmo que uma amiga, quando criana, chamava de oceano. Basta passar o prlogo de O Oceano no Fim do Caminho (traduo de Renata Pettengill; Intrnseca; 208 pginas; 24,90 reais, ou 14,90 reais na verso digital) para que a imaginao vigorosa do ingls Neil Gaiman predomine. O narrador do romance lembra episdios de quatro dcadas antes, quando contava 7 anos: um sujeito alugou um quarto em sua casa, roubou o carro da famlia e se suicidou dentro dele. O triste caso deveria ter se encerrado a, mas a morte do homem despertou criaturas soturnas. Um bosque habitado por seres estranhos e um quarto que inexplicavelmente se desfaz em tiras esto entre os ambientes surreais da histria  todos, diz o autor, oriundos de fantasias que tinha na infncia. "No  uma autobiografia, mas o garoto sou eu", diz Gaiman. Hoje com 52 anos, o escritor explica que, tal como o protagonista de O Oceano no Fim do Caminho, foi um menino introspectivo, de poucos amigos e muitos livros. Gaiman deve muito a uma tradio de literatura gtica e fantstica que vem do alemo E.T.A. Hoffmann e do americano Edgar Allan Poe. Mas diz que, neste livro, se despiu de referncias literrias. Sua matria foi a memria. 
     O nome de Gaiman est vinculado sobretudo aos quadrinhos. Ele  conhecido como criador e roteirista de Sandman, a srie de quadrinhos protagonizada por um deus dos sonhos (e inspirada, desde o ttulo, em um conto famoso de Hoffmann). Embora Gaiman ande afastado dos quadrinhos (diz que tem novos projetos na rea, mas no d detalhes), o seu f mais tpico  aquele que o aborda para falar de Sandman. "O sucesso da srie me persegue", admite. Em 1990, ainda envolvido com Sandman, Gaiman escreveu Livros da Magia, cujo personagem central  um bruxo adolescente com culos redondos. O primeiro Harry Potter; de J.K. Rowling, s seria lanado sete anos depois, mas o sempre polido Gaiman v as semelhanas entre os personagens como coincidncia: "Considero J.K. Rowling uma mulher inteligente". Verstil, Gaiman escreve livros infantis, roteiros de cinema e televiso (acaba de escrever dois episdios da srie inglesa Docror Who), romances. O novo livro surgiu de uma histria que ele fez para sua mulher, a cantora Amanda Palmer. Alis, o escritor de fantasias tenebrosas  um tremendo meloso quando fala de Amanda: "Amo ler, escrever e beijar a minha mulher.  mgico". 
BRUNO MEIER


5. CINEMA  EDUCAO NO GRITO
Universidade Monstros lana mo das convenes da comdia estudantil para mostrar como os personagens do clssico Monstros S.A. se tornaram uma dupla inseparvel.

     Carros 2, de 2011, veio quebrar a tradio de excelncia da Pixar. O estdio que revolucionara o cinema de animao deixava a tocha cair  e quase apagar: a sequncia de Carros mal disfarava seu propsito de ser uma peca promocional para venda de brinquedos. Esse antecedente quase faz esquecer que a Pixar conseguira manter um crescendo emocional nos trs filmes da srie Toy Story. Universidade Monstros (Monsiers Universiry, Estados Unidos, 2013), que estreia nesta sexta-feira, naturalmente vai levantar suspeitas: seguimento oportunista de Monstros S.A., de 2001 ? Bem, no estamos diante de um dos grandes filmes do estdio, e a animao que comeou a franquia era mais cativante. Mas o f do filme original pode ir ao cinema sem receio: encontrar diverso e emoo genunas. 
     Universidade Monstros  o que em ingls se tem chamado de prequel: um filme cuja ao se passa tempos antes do primeiro da srie. A histria revela como a dupla incongruente formada pelo peludo giganto James P. Sullivan (ou Sulley) e pelo baixinho de um s olho Mike Wazowski  no original, dublados por dois monstros da comdia, John Goodman e Billy Crystal  veio a se conhecer. Os dois monstros ingressam na universidade do ttulo, para um curso de excelncia que deve qualific-los como assustadores de crianas (para quem no lembra do primeiro filme: no mundo dos monstros, o grito das crianas humanas  a fonte primordial de energia). Ganhar a vida dando sustos  o sonho de infncia de Mike, que por isso se aplica aos estudos.  ntido, porm, que Sulley leva mais jeito para a coisa: suas dimenses agigantadas, sua carantonha com chifres e dentes, seu urro poderoso so imbatveis para amedrontar meninos e meninas. A excessiva autoconfiana, porm, acaba minando seu desempenho acadmico. Depois de um choque com a diretora da faculdade  uma sinistra criatura com asas de drago e pernas de miripode , os dois alunos, que a princpio no tinham simpatia um pelo outro, tm de se unir para retomar seu lugar na sala de aula. A histria ento ganha os contornos de comdias universitrias como A Vingana dos Nerds, em que as camadas mais baixas da hierarquia estudantil vivem seu momento de herosmo. 
     No h neste filme o elemento de ternura que no original ficava a cargo de Boo, uma criana humana. Mas a Pixar ainda surpreende. Quando se imaginava que a mensagem central seria algo na linha "tudo o que voc sonhar  possvel", uma virada restitui o princpio de realidade: ser mais feliz quem adaptar o sonho  medida de seus talentos. E o filme denuncia a afinidade do estdio com a cultura do Vale do Silcio, dominada por figuras corno Steve Jobs (alis, fundador da Pixar), que passaram  apenas passaram  por uma universidade. 
JERNIMO TEIXEIRA


6. VEJA RECOMENDA
DVD
A FILHA DO PAI (LA FILLE DU PUISATIER, FRANA, 2011. EUROPA)
 Pascal vive de cavar poos,  vivo e tem seis filhas, sendo Patrcia (Astrid Bergs-Frisbey, fraquinha), de 18 anos, sua preferida  uma moa meiga, casta, instruda e linda o bastante para virar a cabea no s do bonacho Felipe (Kad Merad), empregado de Pascal, como do rapaz rico do vilarejo, Jacques (Nicolas Duvauchelle), que pilota avies e motocicletas e fuma cigarros com panache gaulesa. O pai aprova as pretenses de Felipe de se casar com Patrcia, mas ignora que, nos seus passeios com a menina pelas paisagens de beleza impossvel da Provena. Jacques j fez graves avanos contra a honra dela. Quando o dndi  chamado  guerra, em 1914, Patrcia fica sozinha com um daqueles segredos que, em nove meses, se tornam irremediavelmente pblicos.  a partir da que o filme dirigido pelo ator Daniel Auteuil (que faz Pascal com a competncia habitual) chega ao melhor: o poceiro repudia a filha e manda-a embora  mas seus instintos de galinha choca acabam levando a melhor.  brando e sentimental como o filme de 1940 do diretor Mareei Pagnol que lhe deu origem, e igualmente agradvel.

THE NEWSROOM  A PRIMEIRA
TEMPORADA (ESTADOS UNIDOS, 2012.
WARNER)
 Will McAvoy, respeitado ncora, tem um ataque fatal de sinceridade em um debate com estudantes, vira atrao viral na internet e, para garantir a carreira, tem de aceitar a imposio da emissora de trabalhar com uma nova equipe  liderada por sua ex-namorada MacKenzie (Emily Mortimer), que ele admira profissionalmente, mas cuja traio amorosa nunca perdoou. Egocntrico, imperioso, infantil e brilhante, McAvoy , no obstante seus defeitos gritantes, um protagonista compulsivamente interessante graas  excelente interpretao de Jeff Daniels e aos dilogos rapidssimos do criador da srie, Aaron Sorkin  autor tambm da inigualvel The West Wing e do roteiro premiado com o Oscar de A Rede Social. Uma das sacadas de Sorkin  que todos os escndalos que o ncora e sua equipe deslindam em seu noticirio so reais, a exemplo do vazamento da British Petroleum no Golfo do Mxico e das tramias polticas dos bilionrios irmos Koch. A segunda temporada de The Newsroom deve estrear em 15 de julho na HBO, mas  impossvel acompanhar seu enredo (e deliciar-se com ele) sem saber o que se passou leva inaugural.

DISCO
SPIRITYOUALL, BOBBY McFERRIN (SONY)
 O cantor americano Bobby McFerrin no esconde sua irritao quando resumem sua obra ao sucesso Dont Worry Be Happy. Por melhor que seja  e, sim, trata-se de uma delcia para os ouvidos , a cano de 1988 no faz justia  versatilidade do intrprete, que lanou discos de jazz e de msica barroca. Em Spirityouall, ele homenageia seu pai, Robert McFerrin, o primeiro cantor negro contratado pela Metropolitan Opera de Nova York. McFerrin pai interpretou Rigoletto, dublou o ator Sidney Poitier na verso cinematogrfica de Porgy & Bess, de George Gershwin, e trouxe a msica religiosa americana para a sala de concertos com o disco Deep River, de 1957. Spirityouall traz cinco canes do lbum de McFerrin pai ao lado de outras faixas que carregam o mesmo sentimento de f. Bobby McFerrin traz essas canes para o seu mundo, tendo ao seu lado msicos talentosos como a baixista e cantora Esperanza Spalding e o guitarrista Larry Campbell. H momentos divinos, como I Shall Be Released, de Bob Dylan (em verso que supera qualquer outra) e o arranjo R&B de Swing Low, com um dueto de McFerrin e Esperanza.

LIVROS
RAGNARK, DE A.S. BYATT (TRADUO DE MARIA LUIZA NEWLANDS; COMPANHIA DAS LETRAS; 144 PGINAS; 34 REAIS)
 Ragnark foi escrito por encomenda de uma editora, para figurar em uma coleo na qual autores contemporneos faziam fico sobre mitos antigos. Mas a inglesa A.S. Byatt no construiu propriamente uma obra de fico. O livro  uma habilidosa e encantatria mistura de memrias e ensaio. Nas primeiras pginas, aparece uma "criana magra" que tinha 3 anos quando estourou a II Guerra Mundial e, como tantas outras na Inglaterra, foi mandada para o interior do pas para fugir aos bombardeios. Essa menina pode ser identificada com a prpria Byatt, nascida em 1936. Na sua nova casa no campo, a garota tem contato com um livro que a apresenta  mitologia nrdica, com seus deuses violentos  Odin, Frigg, Thor, Loki  que pareciam prefigurar a realidade conflituosa da Europa nos anos da guerra. A autora relaciona os mitos no s ao seu tempo de infncia, mas tambm s crises do mundo contemporneo. A palavra que d ttulo ao livro, do islands antigo, designa o fim do mundo dos deuses.

UM OPERRIO EM FRIAS, DE CRISTVO TEZZA (RECORD; 232 PAGINAS; 34,90 REAIS)
 Cristvo Tezza  autor de romances aclamados, como A Suavidade do Vento, e conheceu um grande sucesso crtico com o premiado O Filho Eterno. O autor catarinense (de nascimento: o cenrio preferencial de sua fico  Curitiba, onde vive desde a infncia)  um cultor do romance. Mas Um Operrio em Frias prova que ele tambm domina o texto breve. Trata-se de uma coletnea de crnicas publicadas no jornal paranaense Gazeta do Povo. Como  prprio dos bons cronistas, Tezza percorre uma grande variedade de temas. Lista compilada aleatoriamente: o cinema em trs dimenses inaugurado por Avatar, o vazio do Carnaval em Curitiba, a chegada dos livros eletrnicos, o relativismo moral e o Atltico Paranaense, time do corao do escritor. A todos esses assuntos, Tezza dedica a mesma prosa elegante, a mesma ateno aos detalhes e o mesmo humor. "Estou desconfiado de que a queda do capitalismo anda meio demorada", diz na crnica de 2008 em que comenta a crise financeira. 


7. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Inferno.  Dan Brown. ARQUEIRO
2. Para Sempre Sua.  Sylvia Day. PARALELA
3. O Silncio das Montanhas.  Khaled Hosseini. GLOBO 
4. A Culpa  das Estrelas.  John Green. INTRNSECA 
5. A Marca de Atena.  Rick Riordan. INTRNSECA 
6. Cinquenta Tons de Cinza.  E.L. James. INTRNSECA 
7. O Lado Bom da Vida.  Matthew Quick. INTRNSECA 
8. Cinquenta Tons Mais Escuros.  E.L. James. INTRNSECA 
9. Irresistvel.  Sylvia Day. HAMELIN 
10.   Cinquenta Tons de Liberdade.  E.L. James. INTRNSECA 

NO FICO
1. Sonho Grande.  Cristiane Correa. PRIMWIRA PESSOA
2. Manifesto do Nada na Terra do Nunca.  Lobo. NOVA FRONTEIRA
3. Casagrande e Seus Demnios.  Casagrande e Gilvan Ribeiro. GLOBO 
4. Antnio Ermnio de Moraes  Memrias.  Jos Pastore. PLANETA
5. Um Gato de Rua Chamado Bob.  James Bowen. NOVO CONCEITO 
6. Dirceu  A Biografia.  Otvio Cabral. RECORD
7. O Livro da Economia.  Vrios. GLOBO 
8. O Livro da Psicologia.  Nigel Benson. GLOBO 
9. O Livro da Filosofia.  Vrios. GLOBO AR 
10. Subliminar. Como o Inconsciente Influencia Nossas Vidas  Leonardo Mlodinow. ZAHAR 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Kairs.  Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2. Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER 
3. Casamento Blindado.  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
4. Uma Prova do Cu.  Dr. Eben Alexander III. SEXTANTE
5. O Poder do Hbito.  Charles Duhigg. OBJETIVA
6. S o Amor Consegue.  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA 
7. O Monge e o Executivo.  James Hunter. SEXTANTE
8. O Mtodo Dukan  Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER
9. Meu Jeito de Dizer que Te Amo.  Anderson Cavalcante. GENTE 
10. A Arte da Guerra.  Sun Tzu. VRIAS EDITORAS


8. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  HERI PELO QUE NO FEZ
     Wanderlei Paulo Vignoli, soldado da PM paulista de 42 anos,  um brasileiro honrado. No meio dos tumultos da ltima tera-feira em So Paulo, promovidos por bandos selvagens que protestavam contra o aumento das tarifas do transporte coletivo, destacou-se pelo equilbrio, sensatez e humanidade. Merece do colunista o galardo de personagem da semana. Quando  um PM que se destaca por tais qualidades, em meio a uma situao de conflito como aquela, j se tem ideia de como andaram as coisas do outro lado. Manifestantes depredaram nibus, agncias bancrias, vitrines de lojas e estaes de metro. Provocaram monstruosos congestionamentos na cidade. Deixaram muita gente que supostamente pretendem proteger  os usurios do transporte coletivo  atrasada para ir ao trabalho ou voltar para casa, desorientada e com medo.  
     Os protestos so promovidos por um certo Movimento Passe Livre. Seu fim ltimo  zerar o custo das passagens de nibus, metr e trem. O objetivo  louvvel. Melhor ainda se inclusse supermercado livre, farmcia livre e shopping center livre, sem esquecer da tarifa area livre e do hotel livre. Esses ltimos itens vo em homenagem ao jeito da massa manifestante. O ar geral  de estudantada. E no a nova estudantada, em que ressalta o pessoal das cotas e do ProUni.  a estudantada tradicional, oriunda da mais pura e caracterstica "elite branca", na memorvel expresso do ex-governador paulista Cludio Lembo. (Confira-se nas fotos e filmes do site do Movimento Passe Livre, saopaulo.mpl.org.br.) Tem jeito de massa a quem tarifas areas dizem mais respeito do que tarifas de nibus. 
     O soldado Vignoli no fazia parte do destacamento encarregado de conter os manifestantes. Ele trabalha na segurana do Palcio da Justia, sede principal do Poder Judicirio de So Paulo, situada junto  Praa da S. Sua funo  guardar a entrada, protegendo o entra e sai de desembargadores, funcionrios e pblico, e a incolumidade do edifcio. Quando viu um jovem pichando um dos muros do palcio, correu e agarrou-o. O jovem tentava desvencilhar-se, o soldado tentava mant-lo imobilizado. Os dois caram no cho, um agarrado ao outro. O reprter Giba Bergamim Jr., da Folha de S.Paulo, estava bem prximo, e  graas a ele que se tem o relato detalhado da cena. Com o PM e o pichador no cho, outros manifestantes os cercaram. Passaram a agredir o soldado com pedradas, chutes e socos. "Eram cerca de dez contra um", relatou o reprter. Uma pedrada atingiu o soldado bem no alto da cabea, coberta por ampla calva. O sangue comeou a escorrer-lhe pelo rosto. Vignoli ouvia gritos de "lincha, mata, tira a arma dele". Foi ento que, com uma mo ainda a imobilizar o pichador, com a outra sacou do revlver e, erguendo-se a meia altura do solo, apontou-o para os agressores. 
     Eis o momento que define uma vida. Eram 8 e meia da noite de tera-feira, 11 de junho de 2013, no ponto mais central da cidade de So Paulo, e a sorte cochichava a Vignoli, numa infame provocao: "E agora? Sai dessa". Atirasse, e o esperava o oprbrio devido a mais um PM assassino, o julgamento, o afastamento das fileiras da corporao, o fim do ganha-po, o colapso do sossego e do futuro, a runa. No atirasse, e o que seria dele diante dos agressores ensandecidos, ainda mais que a sangueira lhe inundava o rosto e escorria pela farda, cegava-o e o fazia suspeitar que estivesse seriamente ferido? Os objetos continuavam a ser lanados contra ele. "Pensei que fosse morrer", diria depois. 
     No atirou. 
     Um outro grupo de manifestantes ajudou a conter os agressores e proteger o soldado. "O PM ia ser linchado", comentou um estudante de cincias sociais ao reprter da Folha. O prprio reprter ajudou a proteger Vignoli, que enfim encontrou uma brecha para escapar e sair em marcha acelerada, intercalada por corridinhas, at o porto dos fundos do Palcio da Justia, por onde penetrou escoltado pelos colegas da segurana do local. Pouco depois era levado a um hospital, onde recebeu cinco pontos na cabea e ganhou folga de cinco dias para repousar e fazer novos exames. O soldado Vignoli foi submetido ao grande teste que no apenas sua profisso, mas a vida em geral reserva contra certas pessoas, o supremo momento do vamos-ver-afinal-quem--voc, e passou. H heris que se notabilizam pelo que fizeram. Ele se notabilizou pelo que no fez.


